Círio de Nazaré

A Lenda

Era fim de 1700. Plácido era um caboclo da região. Certo dia, saiu para caçar no rumo do igarapé Murutucu. Horas depois, após muito caminhar na mata, parou para refrescar-se nas margens do igarapé e viu a imagem da Santa entre as pedras cheias de lodo.

Plácido levou a imagem para sua casa e ali num altar humilde passou a venerar a Santa. Mas, no dia seguinte a imagem havia sumido. Sem saber o que acontecera, Plácido saiu andando pela estrada indo parar nas margens do Murutucu. Para sua surpresa, a imagem estava novamente entre as pedras, no mesmo lugar onde fora encontrada.

Dizem os devotos, que a Santa sumiu outras vezes e essa história chegou ao conhecimento do governador, que mandou levar a Imagem para o palácio e a manteve sob severa vigilância. Mas, pela manhã a Imagem havia sumido novamente. Os devotos concluíram que a Santa queria ficar às margens do Igarapé e lá construíram a primeira Ermida.

O povo vem desde então invocando a Santa e atribuindo a ela as muitas graças recebidas. Foi assim que o culto nasceu e evoluiu.

A transladação no Sábado e o Círio no 2º Domingo de Outubro reproduzem simbolicamente o milagre, fazendo o trajeto da Santa das margens do Igarapé Murutucu (atual Colégio Gentil) até a cidade (atual Catedral na Cidade Velha) e seu retorno (atual Basílica de Nazaré).

A Festa

O Círio é a expressão de dois sentimentos fortes do povo brasileiro: a fé religiosa e o gosto pela festa.

Durante os quinze dias que duram a festa, Belém é envolvida por um espírito de união, onde a família paraense se confraterniza.

O ponto alto da festa é o almoço do Círio. Com mesa farta de comidas típicas de dar água na boca: o pato no tucupi, a maniçoba, o tacacá ou o casquinho de caranguejo....

À noite, o espetáculo é ver a Basílica iluminada, mais de 4.000 lâmpadas são colocadas para fazer os contornos da Fachada da Basílica de Nazaré.

No largo de Nazaré, onde foi construído o CAM – conjunto Arquitetônico de Nazaré, dezenas de pessoas constróem barraquinhas de madeira para venda de bebidas, comidas típicas. As ruas ficam coloridas por brinquedos de miriti, em forma de barquinhos, cobras, carrinhos de vários formatos e tamanhos, que são vendidos nas calçadas e um sem número de lembranças do Círio.

Na concha acústica do CAM, são organizados shows, com músicos famosos e conjuntos de rock que levam a juventude ao delírio. Além disso o arraial montado ao lado da Basílica, garante a diversão da garotada, com direito a roda gigante e muitos brinquedos que vão desde o tradicional cavalinho até modernos jogos eletrônicos.

Durante todo o período do Círio, Belém é só festa, a cidade ganha uma alegria contagiante, uma mistura de fé, folclore, cores e sabores. Por tudo isso, o Círio é considerado o Natal dos paraenses.

A Procissão

Em Belém do Pará, no 2º Domingo de outubro, acontece a maior manifestação religiosa do Brasil. Na verdade toda a população de Belém, mais de um milhão de habitantes e grande parte da população do interior e estados vizinhos participam da festa. Nenhuma outra, inclusive o Natal, nem mesmo festas e espetáculos profanos, como o carnaval e o futebol, tem para o paraense o significado e a importância do Círio.

Os 15 dias de homenagem à Virgem de Nazaré começam com a Transladação que é uma procissão noturna, que acontece na noite do 2º Sábado de outubro, quando o povo conduz a Imagem da Virgem da Capela do Colégio Gentil Bittencourt em Nazaré até a Catedral Metropolitana na Cidade Velha.

A procissão do Círio propriamente dita, acontece no 2º Domingo de outubro, quando saindo da Catedral, a Imagem é conduzida pelo povo até o Largo onde está a Basílica de N.S. de Nazaré. Esse percurso de mais ou menos 2,5 Km é percorrido em 4 horas e mobiliza milhares de pessoas nas ruas de Belém, sem contar outras milhares que assistem à passagem da santa dos edifícios, das janelas das casas, dos palanques e arquibancadas armados nas praças, entoando cânticos e proferindo fervorosas orações num lindíssimo espetáculo de fé.

A procissão é repleta de simbolismo. O traço mais marcante é uma corda, utilizada para puxar o luxuoso carro que transporta a Imagem da Santa. Entre os devotos, a corda representa o elo de ligação do povo com a Virgem. São milhares de romeiros descalços, disputando cada pedaço da corda, fazendo assim um autêntico cinturão humano que protege a Berlinda.

O pagamento de promessas durante a procissão é um dos fatos mais impressionantes. Em agradecimento as graças recebidas por intercessão da Santa, muitos romeiros se vestem com longas mortalhas arrastando pesadas cruzes de madeira, outros levam miniaturas de casas, mini-embarcações e muitos outros objetos que aludem aos milagres feitos pela Virgem. No "carro dos milagres", um barco sobre rodas onde são colocados braços, cabeças e outras partes do corpo trabalhadas em cera, que representam a cura de uma enfermidade por milagre da Santa. Este carro representa o naufrágio do navio São João Batista, em 1846, em que as pessoas se salvaram graças à ação milagrosa da Virgem.

Desde 1986, as festividades de Círio incluem a Romaria Fluvial, realizada no Sábado de manhã. A imagem é levada através da Baía de Guajará, do trapiche de Icoaraci à escadinha do Cais em Belém, acompanhada por um grande número de embarcações.

Durante os 15 dias no arraial no largo de Nazaré, tudo é festa, há fogos de artifício, comidas típicas e parque de diversão. O encerramento dos festejos dá-se após o 4º Domingo de outubro, com a procissão de retorno, chamada Recírio, quando a imagem é devolvida ao seu nicho na Capela Gentil Bittencourt.

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